Vamos plantar soja safrinha?

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safra de soja já chegou ao fim e finalmente o plantio de milho foi finalizado em Mato Grosso do Sul, apesar do grande volume de chuvas, que atrasou bastante a atividade. Entretanto, a visão da famigerada soja safrinha é corriqueira por onde passamos, talhões e talhões plantados com soja. Junto com essa visão, muitos questionamentos sobre sua real capacidade de prejudicar o sistema de cultivo estabelecido vêm à tona. Muito se fala sobre a ferrugem e as pragas, mas qual é a real preocupação? Será que existe algum motivo para tal preocupação?

Alguns pontos de reflexão se abrem com esses questionamentos para uma discussão rápida do assunto:

– O que ocorre com a pressão de doenças e pragas quando iniciamos um ciclo de soja subsequente à outro ciclo de soja?;
– Qual a dinâmica populacional das pragas no campo com esse sistema?;
– O que ocorre com os produtos fitossanitários utilizados durante esse cultivo?

Após respondermos essas reflexões, fica mais evidente os perigos da soja safrinha, cultivada em diversas regiões do Brasi e com perspectivas de crescimento em função dos preços praticados.

Vamos iniciar com as doenças. Se pensarmos em ferrugem asiática da soja, em mancha-alvo e em antracnose como o complexo de doenças mais preocupantes da soja, veremos que tratamos de doenças policíclicas, ou seja, seu desenvolvimento no campo é rápido na presença de hospedeiro (soja) e, com isso, os danos causados são ainda maiores. A soja safrinha já emerge com uma quantidade de inóculo (advinda da safra de soja) mais elevada, o que dificulta o manejo das doenças. Assim, deveremos realizar até cinco aplicações de fungicidas (isso mesmo, cinco aplicações de fungicidas) para conseguir manejar essas doenças e obter bons níveis de produtividade. Essa realidade não é observada na soja de safra, pois a quantidade de inóculo inicial é muito baixa, o que atrasa a infecção das plantas pelos patógenos citados anteriormente e culmina com a redução do número de aplicações de fungicidas.

Quanto às pragas, espera-se a ocorrência antecipada das que têm grande potencial de dano, como lagarta militar (Spodoptera spp.), falsa-medideira e a lagarta Helicoverpa (não vamos esquecer que existem outras pragas, que nem tudo é Helicoverpa e que nem toda Helicoverpa é Helicoverpa armigera). Com o cultivo de soja safrinha, a pressão de pragas será maior do que no cultivo de safra (a quantidade de pragas no inicio do ciclo de cultivo é maior) e será necessário aumentar o número de aplicações de inseticidas. Esse aumento será observado para o controle de lagartas e de percevejos, que a cada ano que passa se torna mais difícil o seu controle.

A estória de que a ferrugem poderá se tornar mais agressiva na próxima safra é um mito. A ferrugem é um parasita obrigatório, ou seja, se desenvolve na cultura da soja e morre quando não há sua presença (por isso cultivos antecipados de soja apresentam menos problema com essa doença, pois na realidade esse cultivo irá gerar inóculo para os cultivos mais tardios). Assim que tiramos a soja do cenário, a quantidade de inóculo de ferrugem é reduzida, prática essa já controlada há vários anos pelo vazio sanitário, obrigatório por lei no Brasil. Mas então, qual é o problema?

O problema é que a intensificação do uso de fungicidas e inseticidas causará redução de sua eficiência em um intervalo de tempo muito curto (lembre-se que iremos no melhor dos cenários dobrar o número de aplicações, o que irá selecionar cada vez mais indivíduos resistentes à esses produtos utilizados). Com essa redução da eficiência, a dificuldade no controle de pragas e doenças ficará mais evidente e deve potencializar os danos por elas causados. Certamente o pensamento de que as empresas irão desenvolver outros produtos nos vem à mente. Mas até quando as empresas irão resolver esses problemas? Quanto que os produtores terão que desembolsar por conta dessa falta de preocupação? Essas duas perguntas incomodam bastante a comunidade científica, sem pensar nas duas próximas perguntas:

– Até quando o preço da soja estará em alta?;
– E se houver uma queda acentuada nos preços da soja, como pagar a conta?

Sem dúvida, do ponto de vista fitossanitário, o sistema soja – soja safrinha é arriscado, bem como do ponto de vista econômico. Isso sem contar a retirada do milho consorciado do sistema, o que incrementa a palha no solo, possibilita o plantio direto e eleva a produtividade da soja ano a ano. Com a retirada do aporte de matéria orgânica no sistema, colocamos em risco todo o trabalho de décadas para construir condições adequadas para o desenvolvimento da soja e elevação dos seus níveis de produtividade (redução dos níveis de matéria orgânica no solo).

Diante desses poucos questionamentos, rapidamente levantados quando pensamos neste assunto, ficam no mínimo evidentes os riscos desse cultivo e do sistema soja – soja safrinha. Logicamente que os problemas abordados são bastante simplistas e que a discussão é muito mais profunda, digna de diversos livros e muitas horas de estudo. Entretanto, será que vamos desconsiderar o que aprendemos a duras penas e plantar soja safrinha? Passar por cima de todo o esforço para o estabelecimento de um sistema de cultivo consagrado, viável economicamente e que acarreta em pouco impacto ambiental e apostar na soja safrinha? Por isso, encerro o meu texto com a pergunta inicial: vamos plantar soja?

José Fernando Jurca Grigolli é engenheiro agrônomo formado pela Universidade Federal de Viçosa (UFV, 2009), mestre em agronomia – produção vegetal – pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (UNESP, 2012) o doutor em andamento em agronomia (entomologia agrícola) também pela UNESP. Na Fundação MS, ocupa o cargo de pesquisador de fitossanidade.

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